Vinho Liebfraumilch: a “mancha negra” da garrafa azul no passado do Riesling

Estava eu escrevendo o post anterior sobre a vinícola Chateau Ste. Michelle, quando me deparo com a história do vinho Liebfraumilch! Quem não lembra daquele vinho branco alemão doce que vinha numa garrafa azul? Se você tem por volta dos 40 anos, com certeza vai lembrar.

Na mesma hora pensei: essa dá uma bela história no mais tradicional estilo mocinho e bandido! Afinal, o vinho Liebfraumilch foi o responsável pela “mancha negra” na reputação do vinho Riesling!

Vinho Liebfraumilch: a “mancha negra” da garrafa azul
Vinho Liebfraumilch: a “mancha negra” da garrafa azul

Digamos que o vinho Riesling é o herói da história e o vinho Liebfraumilch sua versão vilã!

O herói: vinho Riesling

Era uma vez a uva Riesling, uma das mais expressivas uvas brancas do mundo, originária do vale do Reno, na Alemanha, e da Alsácia, na França. Tornou-se rainha dos vinhedos alemães a longa data…

A história começa, portanto, no país responsável pelo nosso “Mineiraço“, derrota sofrida pela Seleção Brasileira de Futebol na Copa do Mundo de 2014, o nosso famoso 7 x 1. -Quem lembra??? Ou melhor, quem não lembra?

Mas é melhor voltar a história do vinho…

A Alemanha cultiva mais Riesling do que qualquer outro país no mundo, e essa uva reina em suas principais regiões viníferas, incluindo as regiões de Mosel, Rheingau e Pfalz.

vinho Riesling é sinônimo de vinho alemão!

Características do Riesling

Riesling é uma uva branca, de grande concentração aromática e fácil de ser cultivada. Seu melhor desenvolvimento ocorre em regiões com clima moderado mais frio e com bastante incidência de luz solar.

Vinhedo da Riesling
Vinhedo da Riesling

O ideal é que não passem por período de envelhecimento em madeira pois o carvalho pode “roubar” seus aromas primários. É capaz de produzir vinhos brancos de ótima qualidade, com aromas finos e elegantes, sabor fresco e com níveis alcoólicos relativamente baixos.

Os vinhos Riesling têm duas características marcantes:

1) um intenso aroma frutado que o torna um dos vinhos mais aromáticos do mundo.

2) alta acidez, quase ao nível de um suco de frutas como limonada.

Embora tradicionalmente doce, atualmente é possível encontrar muitos vinhos secos de excelente qualidade feitos com essa uva.

Do surgimento à derrocada do Riesling

A uva Riesling tem uma longa história. Tem registros datados desde o século XV, sendo o primeiro deles encontrado num armazém de uma pequena cidade alemã chamada Rüsselsheim, em que a uva chamava Rießlingen. Seu nome atual, Riesling, foi documentado pela primeira vez em 1552.

Nos séculos XVIII e XIX, os vinhos Riesling eram excelentes e reconhecidos mundialmente, mas o século XX (tempos de guerra) trouxe muitos prejuízos para a vinicultura alemã, que atingiu o auge de seu “fracasso” entre as décadas de 1960 e 1990 com a produção de vinhos doces e leves para exportação, como os da “garrafa azul”.

Eis que entra em cena o “vilão” de nossa história!

O vilão: vinho Liebfraumilch

O “vilão” da história é um vinho branco suave, fabricado com a uva Riesling de diversas regiões alemães, inclusive as produtoras de vinhos brancos de qualidade, como Rheingau, Mosel e Pfalz.

Seu nome é difícil de soletrar: Liebfraumilch! -Haja consoante!

Popularmente é traduzido como o “leite da mulher amada”, mas sua tradução correta seria “monge de Nossa Senhora” (repare nos desenhos religiosos do rótulo!), e seus vinhedos originários ficam nas proximidades da igreja Liebfrauenstift Church.

Características do Liebfraumilch

  • Tipo: suave
  • Cor: amarelo palha com reflexos dourados
  • Aroma: lembra frutas cítricas, maracujá e maçã
  • Paladar: adocicado, aromático com acidez equilibrada
  • Graduação alcoólica: 9,5%

A praga da garrafa azul!

Vinho Liebfraumilch da garrafa azul
Vinho Liebfraumilch da garrafa azul

Tudo começou no Brasil por volta dos anos 1970. O importador brasileiro Otávio Piva de Albuquerque, dono da Expand, convenceu o fabricante alemão do vinho, Josef Friederich, a comercializá-lo no Brasil com as tais “garrafas azuis” e a um preço acessível.

A ideia da cor azul era para destacar o vinho Liebfraumilch nas prateleiras das lojas e facilitar sua identificação.

Ele tinha razão. A estratégia foi um sucesso e a praga da “garrafa azul” tomou conta dos salões de festa de todo o país!

Pois bem, vou denunciar minha idade: eu bem que lembro! A tal da garrafa azul foi febre por aqui nas décadas de 1980 e 1990, e estava em todas as festas de formatura e casamento que fui!

Qualquer um que já consumia bebida alcoólica (ou que convivia com alguém que bebia), com certeza conheceu o vinho Liebfraumilch. Muitos até iniciaram o contato com a bebida através dele. -Sedutor como um belo vilão tem que ser!

Especialistas dizem que o vinho Liebfraumilch inaugurou uma nova era dos vinhos no Brasil, marcou uma geração e mudou totalmente o mercado nacional de vinhos.

Na década de 1980 cerca de 60% do vinho importado pelo Brasil vinha nas garrafas azuis alemães. E quando o governo Fernando Collor de Melo abriu as importações para o Brasil no início dos anos 1990, é que a praga da “garrafa azul” tomou conta do país mesmo. Entre 1997 e 1998 o vinho Liebfraumilch era o vinho importado mais vendido no Brasil!

O “vinho da garrafa azul” grudou feito “chiclete”

Além de estar em todo lugar, vamos combinar: o nome Liebfraumilch é muito difícil de pronunciar! Muito mais fácil pedir pelo vinho da garrafa azul do que pelo vinho Liebfraumilch. E foi assim que o “danado” foi conhecido por muito tempo.

Voltando aos fatos…

Aos poucos o consumidor brasileiro foi amadurecendo e percebeu que o “vinho da garrafa azul” era de qualidade meio duvidosa, e começou a procurar por rótulos mais “finos”.

Assim, seu sucesso durou pouco… Mas, infelizmente o “efeito Liebfraumilch” durou e foi catastrófico para os vinhos alemães…

O “efeito Liebfraumilch”

Por ser um vinho branco acessível (“barato”), sem muita personalidade (de qualidade duvidosa) e extremamente açucarado (que dava uma baita dor de cabeça no dia seguinte), o Liebfraumilch foi o grande responsável pela dificuldade dos últimos anos de se aceitar novamente a Alemanha como produtora de vinhos de qualidade e pelo mito de que o vinho Riesling é ruim.

-Há quem diga que o Liebfraumilch foi o “grande erro” alemão!

O trauma da garrafa azul foi tão grande que durante muito tempo, mesmo gostando do vinho Riesling, as pessoas tinham “vergonha” de assumir que gostavam. Era só falar de vinho alemão que as pessoas torciam o nariz. Não duvido nada que o mito “vinho branco é para as mulheres” tenha surgido daqui…

Fato é que o consumidor associou o Liebfraumilch a todos os vinhos produzidos na Alemanha e criou uma “barreira” ao vinho germânico. O vinho alemão passou a ser sinônimo de produto barato e de qualidade discutível.

Segundo especialistas, uma tremenda injustiça! A Riesling é a casta alemã mais famosa e muitos especialistas a consideram a melhor cepa branca do mundo.

Uva Riesling
Uva Riesling

A volta por cima do vinho Riesling

Felizmente, como em toda boa história, o mocinho vence o bandido!

O mal-entendido foi resolvido e o vinho Riesling ressurgiu como um excelente vinho, apreciado por conhecedores e sommeliers. Atualmente não sofre mais os efeitos ruins dessa mancha negra em sua reputação!

Os alemães deram a volta por cima e voltaram ao mercado com vinhos de altíssima qualidade. E o vinho Riesling tem “recrutado” novos e fortes produtores; vem ganhando destaque cada vez maior nos EUA e também na Austrália e Nova Zelândia.

Daí voltamos ao início do post, quando falei porque cheguei nessa história. A vinícola Chateau Ste. Michelle (pertinho de Seattle, WA – EUA) é uma das responsáveis pelo renascimento global do Riesling! Sua parceria com o alemão Ernst Loosen vem se destacando mundialmente com a produção de um extraordinário Riesling (Eroica).

Finalmente, a “mancha negra” do vinho Liebfraumilch ficou no passado!

Vinha Riesling do Columbia Valley, WA - EUA (fonte: Pacific Rim Winemakers)
Vinha Riesling do Columbia Valley, WA – EUA (fonte: Pacific Rim Winemakers)

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